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I
O Caso
Ângela Maria Fernandes Diniz, 32 anos, era uma socialite mineira conhecida nas colunas da época. No fim de 1976 vivia em Cabo Frio, no litoral do Rio de Janeiro, na casa de praia que dividia com Raul Fernando do Amaral Street, conhecido como Doca Street.
O relacionamento dos dois era recente e marcado por brigas. Naquela semana, Ângela havia decidido terminar e pedido que ele saísse da casa.
Na noite de 30 de dezembro de 1976, depois de mais uma discussão, Doca disparou contra ela. Foram quatro tiros: três no rosto e um na nuca. Ângela morreu na hora. Não houve mistério sobre a autoria. Doca fugiu, foi localizado dias depois e confessou o crime. Os fatos materiais estavam estabelecidos: quem atirou, em quem, quantas vezes e onde.
O que transformou esse caso num marco não foi a dúvida sobre o autor. Foi o que aconteceu no tribunal. Em 1979, no primeiro julgamento, a defesa não negou os tiros. Sustentou que Doca agira para defender a própria honra, traído e humilhado pela companheira.
O júri de Cabo Frio aceitou a tese. Doca foi condenado a dois anos por excesso culposo, com a pena suspensa. Saiu livre. Um homem que confessou quatro tiros no rosto da companheira deixou o fórum sem cumprir um dia de prisão.
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"Quem ama não mata." (Frase que organizou os protestos contra a absolvição e virou lema do movimento que pressionou pela anulação do primeiro júri, a partir de 1979.)
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II
A Falha
A falha central deste caso não está na investigação. Está na própria lei que o júri aplicou.
A tese da legítima defesa da honra não existia no Código Penal como excludente de ilicitude. Era uma construção dos tribunais, um argumento aceito pela praxe forense brasileira para absolver homens que matavam companheiras sob a justificativa de adultério, abandono ou ofensa à honra masculina.
O raciocínio, sinalizado aqui como o raciocínio que a defesa explorava e não como verdade jurídica, era este: a conduta da mulher teria provocado uma reação que o direito deveria perdoar. A vítima, morta, era posta no banco dos réus.
O julgamento deixava de ser sobre o homem que atirou e passava a ser sobre o comportamento da mulher que apanhou os tiros.
A hipótese que organiza a leitura forense, e fica como hipótese, é que o primeiro júri de Doca não foi um desvio isolado de doze jurados. Foi a aplicação coerente de uma doutrina que já vinha absolvendo assassinos havia décadas, sem qualquer base no texto da lei.
O escândalo não foi um erro pontual do sistema. Foi o sistema funcionando exatamente como vinha funcionando, exposto à luz porque a vítima era conhecida e a absurdez ficou pública.
A reação devolveu o caso ao tribunal. A absolvição gerou protesto nacional. O movimento feminista organizou atos sob a frase "quem ama não mata", que virou lema do período. Sob pressão, o veredito foi anulado por contrariedade à prova dos autos. Em 1981, num segundo júri, Doca Street foi condenado a 15 anos de prisão pelo homicídio.
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