In partnership with

Crime Aberto

DOSSIÊ DO DIA

Caso Bateau Mouche: o convés sem cálculo

Baía de Guanabara, RJ · 1988

A REFORMA ACRESCENTOU UM CONVÉS SUPERIOR, TROCOU O PISO DE MADEIRA POR CONCRETO E SUBIU DUAS CAIXAS D'ÁGUA PARA O TETO, E A VISTORIA RENOVOU O CERTIFICADO SEM REFAZER A PROVA DE ESTABILIDADE QUE DEFINIA A LOTAÇÃO

Leia ouvindo

Crime Aberto 

Spotify
Uma prancheta sobre uma mesa de cais à noite com o desenho técnico de um barco de passeio, um convés superior acrescentado a lápis acima da linha original, um prumo de fio pendurado ao lado e um certificado de vistoria carimbado e nunca refeito, sem pessoas

RESUMO PRELIMINAR

Na virada de 1988, o Bateau Mouche IV saiu de Botafogo com 142 pessoas a bordo, o dobro dos 62 autorizados. A reforma que subiu um convés, trocou o piso por concreto e pôs duas caixas d'água no teto nunca passou por nova prova de estabilidade. O barco afundou em minutos.

Um barco de passeio deixou Botafogo na noite da virada de 1988 com mais do que o dobro da lotação autorizada e afundou em minutos na saída da Baía de Guanabara.

Este dossiê olha para a conta que nunca foi refeita: a reforma acrescentou um convés superior, trocou o piso de madeira por concreto e subiu duas caixas d'água para o teto, e nenhuma nova prova de estabilidade foi feita antes de a vistoria renovar o certificado.

O processo discutiu culpa individual por anos, e o número que definia a lotação nunca virou objeto de resposta técnica.

O casco não nasceu para passeio turístico. Foi construído em Fortaleza, em 1970, como barco de pesca, com o nome Kamaloka. Anos depois virou embarcação de passeio na Baía de Guanabara, rebatizada e adaptada para levar turistas.

A adaptação não foi cosmética. A embarcação ganhou um convés superior, um terraço acrescentado acima da estrutura original. O piso de madeira foi substituído por concreto. Duas caixas d'água foram instaladas no teto.

Cada uma dessas mudanças coloca peso onde antes não havia peso, e peso alto pesa diferente de peso baixo dentro de um barco. O certificado que autorizava a operação, porém, continuou descrevendo a mesma lotação de 62 passageiros.

Na noite de 31 de dezembro de 1988, o Bateau Mouche IV deixou o píer do restaurante Sol e Mar, em Botafogo, por volta das 21h15.

Levava cerca de 142 pessoas, mais que o dobro do número autorizado, rumo à altura de Copacabana para ver a queima de fogos da virada.

O passeio tinha sido vendido como festa de réveillon com jantar e bebida a bordo. A lista de embarque não correspondia ao número real de pessoas, e o total exato levado naquela noite nunca foi estabelecido com segurança.

Perto das 23h50, já fora da barra, na altura da Ilha de Cotunduba, o barco foi atingido por uma onda e adernou. Quase todos os passageiros estavam no mesmo bordo, voltados para a praia, à espera dos fogos.

A água entrou por aberturas que não vedavam, as bombas de esgoto não deram conta e a embarcação afundou em poucos minutos. Das 142 pessoas a bordo, 55 não voltaram.

"O barco ganhou um convés novo e nunca foi medido de novo. A vistoria renovou o número antigo, e a conta que traduz peso em lotação ficou de fora do processo do começo ao fim." (Síntese da leitura que organiza este dossiê, e fica como leitura.)

I

O Caso

O casco não nasceu para passeio turístico. Foi construído em Fortaleza, em 1970, como barco de pesca, com o nome Kamaloka. Anos depois virou embarcação de passeio na Baía de Guanabara, rebatizada e adaptada para levar turistas.

A adaptação não foi cosmética. A embarcação ganhou um convés superior, um terraço acrescentado acima da estrutura original. O piso de madeira foi substituído por concreto. Duas caixas d'água foram instaladas no teto.

Cada uma dessas mudanças coloca peso onde antes não havia peso, e peso alto pesa diferente de peso baixo dentro de um barco. O certificado que autorizava a operação, porém, continuou descrevendo a mesma lotação de 62 passageiros.

Na noite de 31 de dezembro de 1988, o Bateau Mouche IV deixou o píer do restaurante Sol e Mar, em Botafogo, por volta das 21h15.

Levava cerca de 142 pessoas, mais que o dobro do número autorizado, rumo à altura de Copacabana para ver a queima de fogos da virada.

O passeio tinha sido vendido como festa de réveillon com jantar e bebida a bordo. A lista de embarque não correspondia ao número real de pessoas, e o total exato levado naquela noite nunca foi estabelecido com segurança.

Perto das 23h50, já fora da barra, na altura da Ilha de Cotunduba, o barco foi atingido por uma onda e adernou. Quase todos os passageiros estavam no mesmo bordo, voltados para a praia, à espera dos fogos.

A água entrou por aberturas que não vedavam, as bombas de esgoto não deram conta e a embarcação afundou em poucos minutos. Das 142 pessoas a bordo, 55 não voltaram.

 
◆︎◆︎◆︎
 

II

A Falha

A falha central deste caso não está na onda que atingiu o casco, nem na contagem de bilhetes vendidos na portaria. Está numa medição que nunca foi feita: a prova de estabilidade da embarcação depois da reforma que mudou o peso dela.

Estabilidade de barco não é impressão de quem olha para o convés. É conta. O casco flutua com o centro de gravidade num ponto e recebe o empuxo da água em outro. A relação entre esses dois pontos define quanto o barco aguenta inclinar antes de não voltar mais.

A medição que estabelece esse ponto se chama prova de inclinação. Deslocam-se pesos conhecidos de um bordo para o outro, mede-se o ângulo que o casco assume e desse ângulo se calcula a altura do centro de gravidade.

É um teste de algumas horas, feito no cais, com a embarcação parada.

Da conta que sai dessa medição vem tudo o que importa depois. Quantas pessoas podem embarcar, em que convés elas podem ficar, quanto combustível e quanta água o barco pode carregar, e até que ângulo de inclinação ele ainda retorna sozinho ao equilíbrio.

Um convés acrescentado acima da linha original muda a conta inteira. Terraço, piso de concreto e caixas d'água cheias somam toneladas na parte alta da estrutura. Peso alto sobe o centro de gravidade, e centro de gravidade mais alto encurta a margem que o casco tem para se endireitar.

Some o peso móvel. Cento e quarenta pessoas de pé equivalem a cerca de dez toneladas, e essas dez toneladas não ficam paradas nem distribuídas. Quando a atração está de um lado só, elas migram para aquele bordo, e o esforço que empurra o casco cresce junto.

Nenhum desses efeitos é imprevisível. São exatamente o tipo de coisa que a prova de inclinação existe para antecipar, com número, antes de a embarcação sair do cais. Depois da reforma, a conta precisaria ser refeita e a lotação, recalculada para baixo.

A pergunta que fica não é por que o barco adernou. É por que a lotação impressa no certificado continuou valendo para uma embarcação que já não era a embarcação medida. Uma conta não refeita não produz culpado, produz um número sem lastro.

E o número sem lastro tinha efeito prático imediato. Os 62 passageiros autorizados descreviam um casco anterior ao terraço, anterior ao concreto e anterior às caixas d'água. Cada bilhete vendido acima desse limite era conferido contra uma régua que já não valia.

 
◆︎◆︎◆︎
 

III

O Sistema

A vistoria que renova o certificado de uma embarcação de passageiros é o momento em que o Estado confere se o barco continua sendo o barco autorizado. Na prática, ela se concentra no que dá para contar e apontar com o dedo.

Colete salva-vidas, boia, extintor, luz de navegação, documentação da tripulação. Itens materiais, verificáveis num percurso de convés, com resposta imediata de presente ou ausente. Estabilidade não entra nessa lista, porque estabilidade não se vê.

Estabilidade é um cálculo em papel, derivado de uma medição anterior. Para conferir, o vistoriador teria que exigir um documento específico: a prova de inclinação refeita depois da última reforma e as curvas de estabilidade que saem dela.

Sem essa exigência escrita no roteiro da vistoria, a alteração estrutural passa em branco. O barco reformado é aprovado com o certificado do barco antigo, e o carimbo novo carrega um número velho para dentro da temporada seguinte.

Na própria noite do réveillon houve fiscalização no cais. A embarcação chegou a ser detida, já com alguma inclinação causada por água que entrava por dentro, e foi liberada depois de conversa entre os fiscais e representantes da empresa.

Repare no que aquela cena mostra. Não faltou presença do Estado, faltou critério objetivo. Sem um número na mão, o fiscal negocia impressão contra impressão, e a liberação vira juízo de momento numa noite de festa com o píer cheio.

Quando o caso entrou na Justiça, a pergunta mudou de natureza. Processo penal procura conduta: quem autorizou o embarque, quem vendeu bilhete a mais, quem estava no comando, quem assinou o documento de liberação.

A conta de estabilidade não tem réu. Ela não se defende, não confessa e não presta depoimento. Por não caber na pergunta penal, ela sai de cena justamente no lugar onde a explicação técnica seria produzida com força de prova.

Em maio de 1993, os sócios majoritários da empresa foram condenados por homicídio culposo, entre outros crimes, a quatro anos em regime semiaberto. Em fevereiro de 1994 deixaram o país rumo à Espanha, que depois negou o pedido de extradição de um deles.

Nas ações de reparação, o tempo trabalhou na mesma direção. Parte das famílias perdeu o prazo de cinco anos para acionar a União, e o conjunto de processos se arrastou por décadas, com recursos ainda em tramitação vinte e cinco anos depois.

O gargalo não foi falta de norma, foi a ausência de uma medição barata que nenhum documento exigiu no momento certo. A responsabilidade individual foi julgada e discutida por anos. A conta técnica, não.

A variável que decidiu o rumo não foi a onda da barra. Foi o peso acrescentado acima da linha d'água sem que ninguém refizesse a medição que traduz peso em lotação.

Uma prova de inclinação feita no cais depois da reforma teria custado uma manhã de trabalho e devolvido um número novo de passageiros, quase certamente bem abaixo dos 62 que continuaram impressos no papel.

A distância entre um passeio de réveillon e um casco no fundo da barra coube inteira num convés que ninguém pesou.

A pergunta não é quem vendeu bilhete demais, essa a Justiça respondeu, ainda que a pena nunca tenha sido cumprida. É por que uma embarcação pôde ser reformada, recertificada e lotada sem que a única conta capaz de dizer quantas pessoas cabiam ali fosse refeita uma única vez.

Guia Crime Aberto · Novo

Filhos Protegidos

Filhos Protegidos

As 9 brechas de rotina que os criminosos usaram nos casos de Crime Aberto e como proteger seus filhos deles.

Quero o guia →

Sua Jornada

Você lê o Crime Aberto há {{dias_de_leitor | 1}} dias

A cada dia que você permanece, abre, clica, avalia e responde o quiz, você ganha XP (experiência). Mais XP sobe seu nível.

{{nivel | 0}}
NÍVEL
{{rank_nome | Visitante}}
{{xp | 0}} XP · faltam {{xp_falta | 0}} pro Nível {{nivel_prox | 1}}
 
{{edicoes_lidas | 1}}
edições lidas
{{cliques | 0}}
cliques
{{avaliacoes_feitas | 0}}
avaliações
Quero subir meu nível →

Top {{top_pct | 100}}%: Posição {{pos_mes | 0}} na comunidade Crime Aberto nesse mês.

Quem banca a edição de hoje

Your Retirement Has a Vulnerability Most Advisors Never Mention.

Dollar-denominated accounts — 401(k)s, IRAs, savings — are fully exposed to inflation, currency debasement, and government policy. Most financial advisors won't tell you that, because most of them don't profit when you know. Here's what's actually available to you:

  • A Gold IRA uses the same tax protections you already have

  • Physical gold sits outside inflation and banking risk

  • Accounts can go live in as little as 24 hours

  • Zero setup fees, zero-fee buyback guaranteed

  • Free 2026 kit explains everything — no obligation

Recomendação de Newsletter

A Origem das Palavras

📜 A Origem das Palavras

Uma palavra. Uma história.

Todo dia, 12:12. Uma palavra que você usa sem pensar revela séculos de história escondida, em dois minutos de leitura.

Quero Receber →

Como foi a edição de hoje?

Toque nas lupas pra avaliar:

🔍🔍🔍🔍🔍  ótima 🔍🔍🔍🔍  boa 🔍🔍🔍  ok 🔍🔍  ruim 🔍  péssima

💬 A comunidade votou acima e respondeu

Comentários reais de leitores, verificados 

M

“O desenvolvimento interessante para se chegar a não conclusão das investigações”

Mauro · m****@yahoo.com.br
E

“A fragmentação da ação policial é flagrante e absurdamente incompreensível.”

e****@gmail.com
E

“A mídia corporativo, a imprensa e o tal delegado deveriam estar respondendo pelo crime.”

e****@gmail.com

🧠 Quiz do dia

Antes de virar embarcação de passeio na Baía de Guanabara, o casco do Bateau Mouche IV foi construído em Fortaleza, em 1970, com que finalidade original?

ATransporte de carga entre portos do Nordeste
BBarco de pesca, batizado Kamaloka
CEmbarcação de fiscalização costeira
DEscola de vela para turistas

Defenda seu título de {{titulo_quiz | Faro (3 acertos seguidos garantem o primeiro)}}.

Veja o ranking de quem mais acerta →

👀 Abra seu email às 20:20 e você receberá a próxima edição:

Próxima edição

Caso Pixote: o confronto que o laudo não sustenta

Três das oito entradas ficaram no braço direito, erguido à frente do corpo.

Caso encerrado. Veritas numquam perit.

CRIME ABERTO

O crime ficou sem solução. Mas a razão não ficou

📩 Cadastrar·💬 WhatsApp·📝 Pesquisa·📣 Anuncie

Continue lendo