|
Vinte e três pessoas mortas em poucas horas, quase ao acaso, e a autoria geral segue sem nome. O padrão aponta represália policial à véspera, mas apontar não é responsabilizar. A conta dessa noite continua aberta.
Na noite de 13 de agosto de 2015, a região metropolitana de São Paulo registrou a maior chacina de sua história recente.
Em uma janela de poucas horas, entre o início da noite e a madrugada, 23 pessoas foram mortas a tiros em ruas de Osasco, Barueri e Itapevi, cidades vizinhas a oeste da capital.
A maioria das vítimas não tinha ligação entre si nem antecedentes: foram alvejadas em bares, em pontos de ônibus, em frente de casa, por atiradores que passavam em motos e carros e disparavam contra quem estivesse à vista.
I
O Caso
O contexto é o que dá forma ao caso. Na semana anterior, dois agentes de segurança da região, um policial militar e um guarda civil, haviam sido mortos.
A leitura imediata das investigações foi a de uma represália: uma onda de execuções disparada como retaliação, em um padrão que o estado de São Paulo já conhecia de outras chacinas atribuídas a grupos de extermínio com participação de policiais.
Os disparos certeiros, a escolha de horário, a dispersão coordenada por vários bairros ao mesmo tempo apontavam para autores com treinamento e mobilidade, não para um conflito entre facções.
As investigações chegaram a nomes. Dois homens, um policial militar e um guarda civil de Barueri, foram denunciados e, anos depois, condenados pela participação em parte das mortes. Mas 23 corpos espalhados por três municípios numa só noite exigem mais do que dois atiradores. A maior parte das execuções permaneceu sem autoria individual atribuída a ninguém.
Até aqui há um motivo plausível e uma cronologia clara. O que mantém o dossiê aberto não está no porquê. Está na conta que não fecha entre 23 mortos e os poucos nomes que a Justiça conseguiu prender.
|
"O modo de execução, a simultaneidade dos disparos em municípios distintos e a seleção indiscriminada de vítimas são compatíveis com ação retaliatória coordenada por agentes de segurança." (Linha de investigação consolidada nos inquéritos da chacina, Ministério Público de São Paulo, 2015.)
|
II
A Falha
A lacuna deste caso não é o motivo. O motivo, a represália, está razoavelmente estabelecido nos autos e na lógica da sequência. A lacuna é a distância entre o padrão e os nomes: ficou claro como se matou, e quase nada sobre quem puxou cada gatilho.
A dispersão das cenas foi, ao mesmo tempo, a assinatura do crime e o que protegeu seus autores. Vinte e três homicídios em pontos distantes, sob jurisdições e delegacias diferentes, foram tratados de início como ocorrências separadas. Cada cena teve sua própria coleta, sua própria perícia, seu próprio ritmo.
Amarrar balística, horários e trajetos num único inquérito coerente exigia um esforço de integração que o sistema não estava montado para fazer com rapidez.
Quando a conexão entre os casos foi reconhecida, as cenas já haviam sido liberadas, testemunhas já tinham se calado, e a janela útil de prova havia encolhido.
A hipótese que organiza a leitura forense, e fica como hipótese, é esta: a chacina foi obra de mais de um grupo de atiradores agindo na mesma noite sob a mesma motivação, e a ausência de um comando central documentado é justamente o que impede fechar a autoria.
Sem um elo formal entre as células, cada execução vira um caso isolado de prova frágil, e a soma de 23 mortes se dilui em 23 inquéritos que quase nenhum chegou a uma condenação. O padrão grita represália coordenada. Os autos sussurram dois nomes.
III
O Sistema
A Chacina de Osasco e Barueri expõe um ponto cego estrutural: o Brasil investiga homicídios um a um, e crimes que são feitos para se dispersar exploram exatamente essa fragmentação.
Não havia, na noite dos fatos, um mecanismo que tratasse 23 mortes simultâneas em três cidades como um único evento criminal a ser periciado de forma integrada. Cada delegacia abriu o seu caso, e a soma demorou a existir.
Quando uma matança é planejada para acontecer em vários bairros ao mesmo tempo, a lentidão em conectar as cenas não é detalhe: é a brecha por onde a autoria escapa. As condenações pontuais que vieram não fecham a conta de 23 vidas.
A maioria das vítimas daquela noite tem hoje apenas um inquérito arquivado e a certeza, sem nome, de que foram mortas por engano de represália. O padrão foi reconhecido. Os atiradores, em sua maior parte, não.
|