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Crime Aberto

DOSSIÊ DO DIA

Caso Eldorado dos Carajás: 155 fardas sem identificação

Eldorado dos Carajás, PA · 1996

A TROPA ENTROU NA CURVA DO S DA PA-150 EM 17 DE ABRIL DE 1996 SEM TARJETA DE IDENTIFICAÇÃO NAS FARDAS, AS ARMAS NÃO FORAM RECOLHIDAS NO MESMO DIA PARA EXAME, E NENHUM LAUDO CONSEGUIU LIGAR UM DISPARO A UM ATIRADOR

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Uma mesa de repartição à noite com uma tarjeta de identificação de farda em branco, sem nome e sem número, um envelope de evidência lacrado e vazio, um livro de carga de munição aberto sem preenchimento e um croqui de rodovia sem nenhuma marcação, asfalto de pista ao fundo, sem pessoas

RESUMO PRELIMINAR

Em 17 de abril de 1996, cerca de 155 policiais entraram na curva do S da PA-150, no sudeste do Pará, e a ação terminou com 19 vítimas. As fardas estavam sem tarjeta de identificação e as armas não foram recolhidas no mesmo dia para exame.

Cerca de 1.500 pessoas bloqueavam uma rodovia no sudeste do Pará numa tarde de abril, e duas colunas da Polícia Militar entraram pelos dois lados da mesma curva.

Este dossiê olha para os exames que nunca foram feitos: a vinculação de cada projétil a uma arma e de cada arma ao nome de quem a portava.

Dezenove pessoas foram atingidas em poucos minutos diante de centenas de testemunhas, e nenhum laudo conseguiu apontar um único atirador.

Cerca de 1.500 trabalhadores rurais sem terra caminhavam havia dias pelo sudeste do Pará. A marcha tinha destino declarado, Belém, e uma pauta única, a desapropriação de uma fazenda da região para assentamento.

No dia 16 de abril de 1996, o grupo parou na PA-150, no quilômetro 96, num trecho conhecido pelos motoristas da região como curva do S. O acampamento fechou a rodovia e a negociação com o estado atravessou a noite sem acordo escrito.

Na tarde de 17 de abril, a ordem administrativa que chegou à tropa era desobstruir a via. Duas colunas da Polícia Militar saíram de Marabá e de Parauapebas e somavam cerca de 155 homens.

As colunas entraram pelos dois lados da curva. Uma fechou a pista à frente do acampamento e a outra fechou atrás, e a manobra retirou dos dois lados qualquer rota de saída pelo asfalto.

"Dezenove pessoas foram atingidas numa rodovia com hora, quilômetro e centenas de testemunhas, e nenhum laudo conseguiu ligar um disparo a uma mão. A farda estava lá, o nome não." (Síntese da leitura que organiza este dossiê, e fica como leitura.)

I

O Caso

O confronto durou poucos minutos. Ao fim, 19 pessoas estavam mortas na pista e no matagal em volta, e 69 saíram feridas.

Os exames feitos depois descreveram duas assinaturas diferentes no mesmo episódio. Parte das vítimas apresentava tiros disparados à queima-roupa, e parte apresentava lesões produzidas por instrumento perfurocortante.

Boa parte dos policiais entrou na ação com a farda sem tarjeta de identificação. Nome, número de matrícula e patente não apareciam no uniforme de quem estava na curva naquela tarde.

A pista foi liberada em seguida. Os corpos foram removidos, os veículos saíram do acampamento, o tráfego voltou ao normal e as armas da tropa não foram recolhidas naquele mesmo dia para exame.

O caso virou denúncia contra 155 réus e chegou ao tribunal do júri. O julgamento terminou com 152 absolvições, por falta de individualização de conduta, e a data entrou no calendário internacional da luta camponesa.

 
◆︎◆︎◆︎
 

II

A Falha

A falha central deste caso não está na ausência de testemunha. Havia cerca de 1.500 pessoas na rodovia, havia moradores da região e havia equipes de imprensa registrando o que sobrou da cena.

Está na cadeia que liga um disparo a uma mão. Essa cadeia tem três elos, e nenhum deles foi fechado nas horas em que ainda era possível fechar.

O primeiro elo é o projétil. Cada cano imprime marca própria no chumbo que passa por ele, e o material retirado das vítimas guarda essa assinatura mesmo semanas depois.

O segundo elo é a arma. Recolhida no mesmo dia e periciada uma a uma, ela responde por escrito se o projétil que atingiu determinada vítima saiu daquele cano específico, e não de outro.

O terceiro elo é o nome. A escala de serviço, o livro de carga de munição e a tarjeta na farda dizem quem portava cada arma naquela tarde, e a conferência entre munição retirada e munição devolvida fecha o círculo.

A tarjeta é o elo mais barato dos três. Uniforme com nome e número transforma relato de testemunha e imagem de reportagem em identificação individual, sem depender de laboratório nenhum.

Sem tarjeta, a testemunha só consegue descrever farda. Um relato preciso sobre gesto, posição e sequência vira a frase "um policial fardado", e 155 pessoas cabem dentro dessa descrição.

Os laudos de corpo apontaram queima-roupa e lesão por instrumento perfurocortante. As duas conclusões descrevem como cada vítima foi atingida, e nenhuma das duas diz quem estava do outro lado.

A distinção importa porque muda a pergunta. Tiro à queima-roupa afasta a leitura de disparo perdido no tumulto, e a resposta que falta passa a ser o nome de quem estava a um metro.

A hipótese defensiva depende exatamente dos mesmos exames. Se determinado disparo saiu em reação a uma agressão, balística, ângulo e resíduo diriam por escrito, e a versão daquele policial sairia confirmada em laudo.

A janela de coleta é curta e a rodovia acelera o relógio. Estojo some no acostamento, chuva lava asfalto, cano é limpo na rotina do quartel e munição é reposta no dia seguinte sem que ninguém precise decidir apagar nada.

Nada na lista exigia tecnologia rara em 1996. Balística comparativa, exame de resíduo, conferência de carga de munição e livro de escala eram rotina de instituto de criminalística e de quartel.

Nada na lista chegou pronto ao processo. As armas seguiram em serviço, a pista voltou ao tráfego e o júri recebeu 155 réus com a mesma descrição e nenhum laudo capaz de separar um do outro.

A pergunta que fica não é se houve confronto na curva do S. É por que os três elos capazes de ligar cada disparo a um atirador foram deixados quebrados na mesma tarde. Prova ausente não inocenta ninguém, apenas apaga a chance de decidir.

E a ausência dos laudos teve efeito imediato no julgamento. A discussão migrou dos vestígios para as versões, e versão se resolve por depoimento e convencimento, nunca por medida.

 
◆︎◆︎◆︎
 

III

O Sistema

Ação de tropa com resultado fatal cai em duas apurações ao mesmo tempo. A interna cuida do procedimento e da ordem recebida, a criminal cuida da autoria, e cada uma entra no caso com uma pergunta diferente na mão.

A apuração interna pergunta se a operação seguiu o planejamento, se a ordem foi cumprida e se o relatório foi entregue. Não é procedimento desenhado para individualizar quem apertou o gatilho.

A apuração criminal pergunta quem disparou e, para responder, depende de balística comparativa e de identificação nominal. O material estava nas armas e nas fardas, e nenhuma das duas coisas foi retida a tempo.

No tribunal do júri vale a individualização de conduta. Ninguém é condenado por pertencer a um grupo, e cada réu responde pelo que fez, com prova produzida sobre a conduta dele.

Quando 155 pessoas entram numa ação com uniforme igual e sem identificação, a garantia individual passa a funcionar como blindagem coletiva. Ninguém precisa mentir, basta que ninguém consiga ser distinguido.

A tarjeta ausente não tinha, à época, consequência processual escrita. Faltar identificação no uniforme rendia no máximo apontamento disciplinar interno, e o efeito real da falta aparecia anos depois, na sala do júri.

Sobre o recolhimento das armas pesa uma força que ninguém escreve no processo. Arma apreendida é arma fora de escala, tropa desarmada é tropa fora de operação, e a corporação sente o custo já no dia seguinte.

Do outro lado da mesa não há pressão nenhuma. Perícia adiada não gera custo visível nem cobrança imediata, então o armamento volta ao serviço e o vestígio some sem que ninguém precise decidir que ele sumisse.

A cadeia de custódia demorou a virar texto de lei no país. Só em 2019 o Código de Processo Penal passou a descrever as etapas de coleta, acondicionamento e rastreio de vestígio, com responsável nomeado em cada uma.

A competência também estava em disputa naquele exato ano. A lei que mandou crime doloso contra a vida praticado por policial militar contra civil para o tribunal do júri foi sancionada em agosto de 1996, meses depois do episódio na rodovia.

Nas primeiras horas, então, a apuração correu por dentro da estrutura militar, que decidiu o que seria recolhido, quando e por quem.

O episódio teve repercussão internacional imediata. Rendeu relatório de entidade de direitos humanos, missão de observação, cobertura fora do país e uma data no calendário, e nada do que estava na pista virou laudo de vinculação.

Anos depois, o processo passou por instâncias, recursos e novas sessões. Todos esbarraram no mesmo ponto: não existe laudo de vinculação para reler, nem conferência de munição arquivada para reabrir.

A conta técnica não tem réu. Ela não se defende, não confessa e não presta depoimento, e por não caber na pergunta disciplinar nem na pergunta criminal, sai de cena onde a resposta seria produzida com força de prova.

O gargalo não foi falta de suspeito, foram 155 fardas sem nome e um conjunto de armas que norma nenhuma obrigou a recolher naquela tarde. A cena teve centenas de testemunhas. O disparo não teve um dono por escrito.

A variável que decidiu o rumo do caso não foi o número de pessoas na rodovia. Foi uma pista devolvida ao tráfego antes de alguém ligar cada projétil ao cano que o imprimiu.

Com os laudos nos autos, a autoria estaria definida ainda nos anos 1990, por escrito, e o júri partiria de fato medido em vez de partir de versão.

A pergunta não é se houve tumulto na curva do S, porque a rodovia inteira respondeu essa parte no mesmo dia. É por que os três elos capazes de nomear cada atirador foram deixados quebrados numa tarde só.

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