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O caso Evandro não é sobre um ritual satânico que nunca existiu, é sobre confissões arrancadas na tortura. Anos de prisão se sustentaram em zero prova material. Os autos expõem o que a investigação preferiu inventar.
Em 6 de abril de 1992, Evandro Ramos Caetano, seis anos, desapareceu perto de casa, no centro de Guaratuba, no litoral do Paraná. Seis dias depois, em 12 de abril, seu corpo foi encontrado em um matagal da região, com sinais de mutilação. Numa cidade pequena, o pânico foi imediato, e a pressão por uma resposta rápida virou o motor da investigação.
A apuração da Polícia Civil paranaense logo abandonou a hipótese de um crime comum e passou a sustentar algo muito mais grave: a de que Evandro teria sido morto em um ritual de sacrifício humano ligado a uma seita satânica.
Em torno dessa narrativa, foram presos e denunciados vários acusados, entre eles um casal de classe alta da cidade, apontados como mandantes, e outras pessoas como executores.
I
O Caso
A tese ganhou os jornais antes de ganhar provas. O que prendeu os acusados não foi material recolhido na cena. Foram confissões. Em torno delas, montou-se um dos processos mais longos e contestados do país, que se arrastaria por mais de duas décadas entre prisões, anulações e novos júris.
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"Confissão arrancada sob dor não prova o crime. Prova apenas que a pessoa, sob sofrimento, dirá o que o interrogador quer ouvir."
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II
A Falha
A falha central deste dossiê é a origem das confissões. Anos depois, ficou documentado que depoimentos que sustentaram a acusação foram obtidos sob tortura: relatos de afogamento simulado, choques, espancamento e ameaças durante os interrogatórios. Uma confissão extraída sob dor não estabelece o que aconteceu. Estabelece apenas até onde o corpo aguenta antes de repetir o roteiro do interrogador.
O segundo problema é a lacuna entre a tese e os autos. O ritual satânico funcionava como explicação completa e espetacular, mas o processo não trazia a prova material que uma tese dessas exigiria.
Não havia laudo que vinculasse os acusados à cena de forma técnica e independente, nem evidência física do alegado culto que pudesse ser submetida ao contraditório. A narrativa preenchia o vazio que a perícia deveria ter ocupado.
A hipótese, sinalizada como hipótese, é a de que a tese do ritual foi menos uma conclusão investigativa e mais um enquadramento construído para encerrar um caso sob pressão pública.
Quando a história já está pronta, o interrogatório deixa de buscar o que aconteceu e passa a buscar a confirmação do roteiro. Nos julgamentos que se seguiram, os acusados foram sendo absolvidos.
Pessoas que passaram anos presas saíram sem condenação definitiva, e a morte de Evandro permaneceu, na prática, sem autoria provada.
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