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Um pastor foi baleado na garagem da própria casa, em Niterói, na madrugada de 16 de junho de 2019, e a primeira versão dada à polícia foi a de um assalto. Este dossiê olha para o que a perícia nunca pôde registrar: o corpo saiu do local antes da chegada dos peritos, o piso da garagem foi lavado ainda nas primeiras horas e ninguém que estava na casa teve as mãos submetidas a exame de resíduo de disparo. O caso só virou meses depois, por confissão e rastro digital, longe da cena onde os tiros foram dados.
Anderson do Carmo de Souza tinha 42 anos, era pastor e cuidava da administração financeira do ministério religioso que dirigia com a mulher, Flordelis dos Santos de Souza, eleita deputada federal pelo Rio de Janeiro em 2018 com votação expressiva.
A família morava em Pendotiba, região de Niterói, numa casa conhecida no país inteiro pela quantidade de filhos, entre biológicos, adotivos e acolhidos. Era um endereço com muita gente morando junto e circulando em horários variados, dia e noite.
Na madrugada de 16 de junho de 2019, Anderson voltou para casa e parou o carro na garagem. Foi baleado ali mesmo, dentro do perímetro do imóvel, a poucos metros de onde a família dormia. O laudo cadavérico registrou dezenas de perfurações, a maior parte concentrada na região pélvica.
A primeira versão apresentada à polícia foi a de um assalto. Um criminoso teria rendido o pastor na garagem e fugido em seguida. Nenhum objeto foi levado da vítima nem do carro, e ninguém de fora do imóvel foi apontado ali como autor com descrição minimamente útil.
Antes da chegada dos peritos, o corpo foi retirado da garagem e levado às pressas para um hospital da região, onde a morte foi confirmada. Tentar socorrer alguém baleado é reação comum e legítima, e mexe no local por um motivo que ninguém contesta.
O que veio depois é de outra natureza. Ainda naquelas primeiras horas, a garagem foi lavada. Quando os peritos entraram no imóvel, o piso onde o corpo estivera já tinha passado por água, e nenhuma das pessoas presentes teve as mãos examinadas.
O exame de corpo teve material com que trabalhar: as perfurações, as trajetórias internas, os projéteis alojados. O exame de local, não. Ele chegou a uma garagem limpa. O caso entrou no sistema com a etiqueta de latrocínio, roubo seguido de morte, e ficou com ela por semanas.
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"O corpo saiu da garagem antes dos peritos e o piso foi lavado ainda na madrugada. Faltou o exame que transformaria a cena em prova material, e a apuração precisou ser refeita por telefone, mensagem e depoimento." (Síntese da leitura que organiza este dossiê, e fica como leitura.)
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I
O Caso
Anderson do Carmo de Souza tinha 42 anos, era pastor e cuidava da administração financeira do ministério religioso que dirigia com a mulher, Flordelis dos Santos de Souza, eleita deputada federal pelo Rio de Janeiro em 2018 com votação expressiva.
A família morava em Pendotiba, região de Niterói, numa casa conhecida no país inteiro pela quantidade de filhos, entre biológicos, adotivos e acolhidos. Era um endereço com muita gente morando junto e circulando em horários variados, dia e noite.
Na madrugada de 16 de junho de 2019, Anderson voltou para casa e parou o carro na garagem. Foi baleado ali mesmo, dentro do perímetro do imóvel, a poucos metros de onde a família dormia. O laudo cadavérico registrou dezenas de perfurações, a maior parte concentrada na região pélvica.
A primeira versão apresentada à polícia foi a de um assalto. Um criminoso teria rendido o pastor na garagem e fugido em seguida. Nenhum objeto foi levado da vítima nem do carro, e ninguém de fora do imóvel foi apontado ali como autor com descrição minimamente útil.
Antes da chegada dos peritos, o corpo foi retirado da garagem e levado às pressas para um hospital da região, onde a morte foi confirmada. Tentar socorrer alguém baleado é reação comum e legítima, e mexe no local por um motivo que ninguém contesta.
O que veio depois é de outra natureza. Ainda naquelas primeiras horas, a garagem foi lavada. Quando os peritos entraram no imóvel, o piso onde o corpo estivera já tinha passado por água, e nenhuma das pessoas presentes teve as mãos examinadas.
O exame de corpo teve material com que trabalhar: as perfurações, as trajetórias internas, os projéteis alojados. O exame de local, não. Ele chegou a uma garagem limpa. O caso entrou no sistema com a etiqueta de latrocínio, roubo seguido de morte, e ficou com ela por semanas.
II
A Falha
A falha deste caso não está numa prova perdida com o tempo. Está em duas provas que nunca chegaram a existir: o exame de um local íntegro e o exame de resíduo nas mãos de quem estava dentro da casa naquela madrugada.
Nenhuma das duas depende de tecnologia cara, de laboratório raro ou de investigação demorada. Dependem de duas condições banais: que o local não seja tocado até o perito entrar, e que as mãos sejam coletadas antes de serem lavadas.
Uma garagem preservada responde perguntas que testemunha nenhuma responde. Onde caiu cada estojo, a posição do corpo em relação ao carro, a distância do disparo, a distribuição do sangue no piso, a altura e o ângulo de qualquer marca na parede.
Esses vestígios não são detalhe de laudo, são o esqueleto da reconstituição. Eles indicam de onde partiram os tiros, quantas armas havia em uso, se o atirador entrou da rua ou se já estava dentro do perímetro quando o carro parou.
Água num piso de cimento apaga o conjunto em minutos. Estojo é varrido junto com a sujeira, mancha de sangue vira água descendo pelo ralo, resíduo de pólvora no chão simplesmente sai. Nenhum desses vestígios é recuperável depois, nem pelo melhor perito do estado.
O exame residuográfico tem a mesma simplicidade e a mesma janela curta. É uma coleta nas mãos, com adesivo ou swab, feita em poucos minutos, que procura as partículas de chumbo, bário e antimônio que a queima da munição deposita na pele de quem dispara.
O resultado não condena ninguém sozinho, e um exame negativo também não inocenta. Partícula sai com sabão, some com o tempo e migra no contato entre pessoas. Justamente por caducar rápido, o exame só tem valor se for feito nas primeiras horas, com todo mundo que estava no perímetro.
A pergunta que fica não é quem passou a mangueira na garagem. É por que ninguém que estava dentro daquela casa teve as mãos coletadas por um teste que leva minutos, custa quase nada e perde validade em poucas horas. Exame não feito não produz inocente nem culpado, produz um vazio.
E o vazio teve efeito prático imediato. Sem local íntegro e sem residuográfico, a versão do assalto não encontrou prova física que a contradissesse, e ela sustentou o rumo da apuração enquanto a etiqueta de latrocínio permaneceu no registro.
III
O Sistema
Preservar o local não é recomendação de manual, é obrigação legal. O Código de Processo Penal manda a autoridade policial dirigir-se ao lugar do fato e preservar o estado e a conservação das coisas até a chegada dos peritos criminais.
A regra existe por um motivo simples. O vestígio material é a única parte da prova que não muda de versão. Depoimento pode ser corrigido, lembrado de outro jeito, refeito meses depois. Prova física não se reescreve, ela só se conserva ou se perde.
Só que entre o disparo e a chegada da perícia existe uma janela em que o local não está sob controle de ninguém do Estado. Quem chega primeiro é o socorro, o vizinho, o parente. O perito é sempre o último a entrar.
Nessa janela, a cena pertence a quem mora na casa. A preservação depende, então, de uma ordem clara e rápida da primeira guarnição que atende ao chamado: isolar o perímetro, tirar todo mundo de dentro, não deixar ninguém limpar nada e segurar as mãos dos presentes para coleta.
A classificação inicial empurra o caso na mesma direção. Registrado como latrocínio, ele entra numa fila de roubo seguido de morte, com diligências voltadas para fora do imóvel: câmeras da rua, celulares roubados na região, suspeitos conhecidos de assalto no bairro.
Reclassificar exige indício novo. Sem prova de local, o indício novo só aparece quando alguém fala ou quando um dado digital sobra em algum lugar. Cada semana com a etiqueta errada é uma semana em que a própria casa não é o objeto do exame.
Foi por fora da garagem que o caso virou. Em agosto de 2019, dois filhos foram presos, e um deles, que morava no imóvel, confessou ter efetuado os disparos contra o pastor na madrugada de junho.
Dali em diante a apuração andou por quebra de sigilo telefônico, mensagens, movimentação financeira e depoimentos sucessivos. Uma reconstrução feita de papel e de palavra, montada em meses, no lugar da reconstrução material que caberia numa manhã de trabalho.
Em agosto de 2021, Flordelis teve o mandato cassado pela Câmara dos Deputados e foi presa. Em novembro de 2022, o júri popular a condenou a 50 anos e 28 dias de prisão pelo homicídio do marido, junto com a condenação de outros réus da mesma casa.
O gargalo não foi falta de prova, foi a destruição da prova mais simples de todas antes que qualquer perito pudesse olhar para ela. O desfecho veio de confissão e rastro digital, não da cena onde os tiros foram dados.
A variável que decidiu o rumo não foi a evidência, foi quem teve o controle do local nas primeiras horas. Uma garagem isolada às quatro da manhã, com mãos coletadas antes do amanhecer, teria produzido em uma manhã o que custou anos de investigação, e teria respondido de saída se o atirador veio da rua ou já estava do lado de dentro. A distância entre um assalto na garagem e um crime dentro de casa coube inteira num piso lavado antes da perícia. A pergunta não é quem apertou o gatilho, essa a Justiça respondeu. É por que um endereço com um homem baleado ficou tempo suficiente sem isolamento para ser limpo, e por que ninguém ali teve as mãos examinadas enquanto o exame ainda valia.
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