|
Entre janeiro e junho de 1998, corpos de mulheres jovens começam a aparecer na mata do Parque do Estado, a maior área verde da capital paulista, na zona sul de São Paulo.
O modo é repetido: a vítima é abordada com a promessa de um teste fotográfico para modelo, levada para dentro do parque, abusada e estrangulada. Algumas sobreviventes escapam e descrevem o mesmo homem, jovem, magro, de fala mansa, que se apresenta como fotógrafo ou produtor.
I
O Caso
O que liga os crimes é geográfico e cirurgicamente claro em retrospecto: a mesma área de mata, o mesmo discurso de abordagem, o mesmo padrão de violência. No momento em que ocorrem, porém, cada ocorrência entra no sistema como um caso isolado.
O Parque do Estado faz fronteira com mais de uma circunscrição policial, e os corpos, achados em pontos distintos da mata e em datas espaçadas, são registrados em delegacias diferentes da capital.
Em 3 de junho de 1998, Francisco de Assis Pereira, motoboy de 30 anos, é identificado e localizado. Preso, ele confessa uma série de ataques e indica pontos do parque. A contagem oficial fecha em vários assassinatos e um número maior de sobreviventes. Em 1999 ele é levado a júri e condenado a mais de 120 anos de prisão, somando as sentenças.
|
"As ocorrências relativas às vítimas localizadas no parque foram inicialmente registradas em circunscrições distintas, o que retardou a identificação de um único padrão de autoria." (Síntese do andamento investigativo do caso, conforme noticiado à época, São Paulo, 1998.)
|
II
A Falha
A lacuna central deste dossiê não é a identidade do autor, que confessou e foi condenado. É o intervalo em que crimes com a mesma assinatura tramitaram como casos sem relação entre si.
Vítimas abordadas com o mesmo enredo de teste fotográfico, levadas para a mesma mata, mortas pelo mesmo método: o padrão estava nos boletins. O que faltou foi o cruzamento. Sobreviventes deram descrições convergentes do agressor a unidades diferentes, e essas descrições não foram somadas num único quadro a tempo.
Sem uma central que reunisse ocorrências por modo de operação e por região, cada delegacia trabalhou com a fração de informação que tinha em mãos, e nenhuma viu a série inteira.
A hipótese que organiza a falha, e aqui é hipótese sobre o processo, não veredito sobre pessoas, é direta: parte das mortes do segundo trimestre de 1998 ocorreu dentro da janela em que os primeiros casos já estavam registrados, mas ainda não tinham sido reconhecidos como obra de um mesmo agressor.
A demora em conectar não foi falta de pistas. Foi falta de um ponto onde as pistas espalhadas se encontrassem.
III
O Sistema
O caso do Maníaco do Parque expõe uma falha que sobrevive ao autor preso: a ausência de um mecanismo que obrigue a comparação de ocorrências por padrão, e não só por território.
Quando um agressor atua na fronteira entre circunscrições, o desenho da investigação por delegacia vira um filtro que fragmenta a série em pedaços pequenos demais para alarmar qualquer unidade isolada. A correção não dependia de tecnologia rara nem de sorte.
Dependia de protocolo: cruzar modo de operação, perfil de vítima e geografia antes que a contagem subisse. O sistema condenou o homem que confessou. Não condenou, e em larga medida nem nomeou, a lacuna de coordenação que deu a ele mais tempo do que deveria.
|