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Corpos com a mesma assinatura apareceram na mesma mata, e ainda assim cada caso parou numa delegacia diferente. Ninguém pôs os papéis lado a lado. A falha não foi do criminoso esconder, foi do sistema não cruzar o que já tinha.
Mariana Costa tinha 22 anos e foi a quarta a aparecer. O corpo estava numa trilha pouco usada da Serra da Cantareira, na divisa entre dois municípios da Grande São Paulo, coberto por galhos, com as mãos amarradas às costas por um nó de marinheiro que se repetia.
A data oficial de localização foi um sábado de manhã de 2011, quando um trilheiro tropeçou no que achou ser lixo abandonado.
I
O Caso
Antes dela, ao longo de pouco mais de dois anos, outras três jovens com perfil semelhante já tinham sido encontradas na mesma faixa de mata. Mesma idade aproximada, mesma forma de imobilizar os pulsos, o mesmo tipo de terreno escolhido para o descarte, a poucos quilômetros uma da outra.
Para quem olhasse os quatro casos juntos, a repetição saltava aos olhos. Mas ninguém olhou os quatro casos juntos. A Serra da Cantareira é cortada por limites administrativos, e cada corpo caiu na área de uma delegacia distinta.
Um boletim foi registrado num distrito, outro num segundo, um terceiro numa delegacia de plantão de cidade vizinha. Quatro ocorrências, quatro inquéritos, quatro escrivães, nenhum cruzamento.
Cada laudo, sozinho, parecia mais uma morte sem testemunha numa mata grande. Juntos, descreviam a assinatura de uma única pessoa. O que mantém o dossiê aberto não é a falta de provas em cada caso, e sim o fato de que ninguém pôs as provas na mesma mesa.
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"Quatro corpos, o mesmo nó, a mesma trilha. O que separava os casos não era a evidência, era o endereço da delegacia onde cada boletim foi parar." (Síntese da leitura forense que organiza este dossiê, e fica como leitura.)
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II
A Falha
A lacuna deste caso não é a perícia de cada corpo. Cada laudo, isolado, descrevia bem o que tinha na frente: causa da morte, tipo de nó, estimativa de tempo, ausência de documentos. A lacuna é de conexão. Os boletins existiam, descreviam o mesmo modus operandi e nunca foram lidos um ao lado do outro.
Tratar mortes em série como ocorrências isoladas tem um custo prático que vai muito além da estatística. Perguntas que só nascem da comparação tendem a não ser feitas. Por que o mesmo nó aparece em corpos registrados em delegacias diferentes?
Por que o descarte se concentra na mesma trilha de difícil acesso, e não em pontos espalhados? Por que o intervalo entre uma morte e outra encurta, como quem ganha confiança?
A hipótese que organiza a leitura forense, e fica como hipótese, é esta: quando cada boletim mora numa jurisdição separada e ninguém detém a visão do conjunto, o padrão deixa de ser visível. O autor não precisa ser genial para escapar. Basta que o sistema esteja desenhado para enxergar uma morte por vez.
A diferença entre quatro homicídios avulsos e uma série é a diferença entre quatro inquéritos mornos e uma força-tarefa, entre um arquivamento por falta de pistas e um perfil que estreita os suspeitos. O ponto não é que faltasse informação.
É que a informação estava repartida em gavetas que não se falavam, e cada gaveta, sozinha, parecia conter apenas mais um caso sem solução.
III
O Sistema
O caso Mariana Costa expõe um ponto cego estrutural na forma como o aparato fragmenta a violência por endereço. O território é dividido em jurisdições, e cada delegacia responde pelo que cai dentro da sua linha no mapa. Faz sentido administrativo.
Só que o criminoso não respeita linha de mapa, e a serra que serve de cemitério improvisado não sabe em qual município termina. Quando o descarte acontece justamente nas bordas, onde uma área vira outra, o crime ganha uma vantagem silenciosa: cada pedaço dele é problema de outra repartição.
Essa economia de atenção não é neutra. Ela decide quais padrões sobrevivem ao registro e quais somem dentro do arquivo de cada distrito.
Um corpo numa trilha vira mais uma ocorrência local, fácil de empilhar sobre dezenas de outras, difícil de comparar com algo que está num prédio diferente, sob outro delegado, em outra cidade. A integração que cruzaria os boletins depende de alguém com a visão do todo, e essa pessoa raramente existe quando o todo está espalhado por quatro endereços.
As vítimas da Cantareira não morreram por falta de provas. Morreram, em parte, porque o sistema que deveria reconhecê-las como vítimas do mesmo autor estava organizado para nunca enxergar o conjunto.
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