|
Isabella Oliveira Nardoni tinha cinco anos. Na noite de 29 de março de 2008, foi levada pelo pai, Alexandre Nardoni, e pela madrasta, Anna Carolina Jatobá, ao apartamento do casal no Edifício London, na Vila Guilherme, zona norte de São Paulo.
Por volta das 23h40, a menina caiu da janela do sexto andar e morreu no jardim do prédio. Os dois irmãos mais novos, filhos do casal, dormiam no apartamento.
I
O Caso
A versão apresentada pelo casal foi a de um intruso. Segundo Alexandre e Anna Carolina, um homem teria entrado no apartamento enquanto a família subia do carro, cortado a tela de proteção da janela e jogado Isabella. A tela estava de fato rasgada.
Mas a cena, quando a perícia chegou, já não era a cena original: havia sido limpa e alterada nos minutos entre a queda e a chegada da polícia. Sangue fora removido, objetos deslocados, o ambiente mexido.
Mesmo com a cena comprometida, a perícia trabalhou. Marcas no pescoço da criança indicavam tentativa de asfixia anterior à queda. O corte na tela de proteção, examinado de perto, era incompatível com a entrada de um adulto: pequeno demais, feito por dentro.
E a trajetória do corpo, reconstruída a partir do ponto de impacto no jardim, não fechava com um lançamento à distância por um estranho apressado.
Em 2010, um júri condenou Alexandre a mais de 31 anos e Anna Carolina a mais de 26 anos de prisão. O que sustentou a sentença não foi uma confissão. Foi a física da queda. Até aqui, o caso parece resolvido. O que mantém o dossiê aberto está na cena, não no veredito.
|
"A trajetória reconstituída do corpo e o exame do corte na tela de proteção são incompatíveis com a hipótese de lançamento por terceiro estranho ao núcleo familiar." (Reconstituição pericial do caso, Instituto de Criminalística de São Paulo, 2008.)
|
II
A Falha
A lacuna deste caso não é quem estava no apartamento. Era um espaço fechado, com duas pessoas adultas e a vítima. A lacuna é outra: a cena do crime foi alterada antes que qualquer perito a registrasse, e essa alteração quase venceu.
Os primeiros minutos depois da queda não foram tratados como cena de crime por ninguém presente. O ambiente foi limpo. Provas que deveriam ter sido fotografadas intactas foram movidas ou suprimidas. Em tese, é exatamente assim que uma investigação morre: sem cena preservada, a reconstituição perde a âncora física e a versão de um intruso ganha espaço para existir como dúvida razoável.
A hipótese que organiza a leitura forense, e fica como hipótese, é esta: o caso só não virou mais um arquivamento por insuficiência de provas porque a perícia conseguiu reconstruir, a partir do que sobrou, aquilo que a limpeza tentou apagar.
A trajetória da queda, o ângulo do impacto, o corte na tela examinado por dentro, as marcas no corpo. Cada elemento foi remontado depois, contra uma cena já adulterada. A falha foi não preservar.
O que impediu a falha de ser fatal para a investigação foi a perícia ter tratado a física como testemunha, e a física não mente sobre de onde um corpo caiu.
III
O Sistema
O caso Isabella Nardoni expõe um ponto cego estrutural: no Brasil, a preservação da cena depende de quem chega primeiro, e quem chega primeiro quase nunca é a perícia.
Entre a ocorrência e a chegada do perito criminal há um intervalo em que parentes, socorristas e curiosos circulam sobre a prova sem protocolo que os contenha.
Numa cena alterada, a maioria dos casos não tem a sorte de uma reconstituição física tão decisiva: o corte na tela, o ângulo da queda, a trajetória mensurável. A condenação aqui veio porque a engenharia forense supriu o que a cadeia de custódia não protegeu.
Isso não é virtude do sistema. É exceção apesar dele. A regra, na maioria dos crimes domésticos do país, é que a cena é perdida nos primeiros minutos e nunca mais reconstruída. Isabella teve perícia. Milhares de vítimas têm apenas o arquivamento.
|