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Na manhã de 23 de junho de 1996, dois corpos foram encontrados em uma casa de praia no condomínio Jardim Alagoinhas, em Maceió. Paulo César Cavalcante Farias, 50 anos, conhecido pela sigla PC Farias, estava na cama. Suzana Marcolino, 28 anos, sua namorada, estava no chão ao lado.
Cada um havia sido atingido por um único disparo. A arma, uma pistola calibre .380, estava na cena.
PC Farias não era um nome qualquer. Foi o tesoureiro da campanha presidencial de Fernando Collor de Mello em 1989 e o operador financeiro do esquema de corrupção que levou ao impeachment do presidente em 1992. Conhecia o fluxo de dinheiro de um governo inteiro. Em 1996, respondia a processos e cumpria prisão domiciliar quando foi morto.
I
O Caso
A primeira leitura oficial da cena foi a de homicídio seguido de suicídio. Suzana teria atirado em PC Farias enquanto ele dormia e, em seguida, se matado. Mas a posição dos corpos, a trajetória dos projéteis e a ausência de resíduos de disparo compatíveis nas mãos de Suzana abriram, desde o primeiro dia, uma fenda na versão que nunca mais se fechou.
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"A trajetória descrita para o disparo que atingiu a vítima feminina é incompatível com um tiro autoinfligido nas condições alegadas." (Laudo pericial independente produzido após exumação dos corpos.)
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II
A Falha
A falha central deste dossiê não é a falta de perícia. É o excesso de perícias que não convergem. A perícia oficial alagoana concluiu pela tese de homicídio seguido de suicídio.
Anos depois, uma exumação dos corpos e a contratação de peritos independentes, entre eles o legista Fortunato Badan Palhares, produziram laudo em sentido oposto: homicídio duplo, executado por um terceiro atirador, com a cena posteriormente alterada para simular o crime passional.
Os pontos de divergência são técnicos e verificáveis. A trajetória do tiro que atingiu Suzana seria, segundo o laudo independente, incompatível com um disparo autoinfligido. A quantidade e a distribuição de resíduos de pólvora não fechavam com a hipótese de que ela teria empunhado a arma.
A hipótese, sinalizada como hipótese, é a de queima de arquivo. PC Farias detinha informação sensível sobre o financiamento de uma campanha presidencial e sobre quem recebeu o quê. Um homicídio duplo encenado como tragédia romântica encerraria, de uma vez, tanto a testemunha quanto o interesse público no caso.
Nada disso foi provado em juízo. Mas a tese passional dependia de uma reconstituição balística que a contraperícia desmonta ponto a ponto, e o sistema nunca submeteu as duas versões a um confronto técnico definitivo.
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