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Paulo César Cavalcanti Farias era o homem que sabia onde estava o dinheiro. Ex-tesoureiro da campanha de Fernando Collor de Mello, operador do esquema de corrupção que levou ao impeachment de 1992, réu em processos por evasão fiscal e lavagem de dinheiro. Na madrugada de 23 de junho de 1996, PC Farias e sua namorada Suzana Marcolino foram encontrados mortos no quarto da casa dele em Maceió, Alagoas. A polícia concluiu, em tempo recorde, que Suzana matou PC e depois se suicidou. A cena foi apresentada como crime passional.
O que Crime Aberto examina neste dossiê não é se PC Farias foi assassinado. É por que a investigação foi encerrada com uma tese que peritos, jornalistas investigativos e até familiares dos mortos consideraram incompatível com as evidências da cena.
I
O Caso
PC Farias estava em liberdade em 1996, respondendo a processos em várias instâncias. Era, naquele momento, o principal detentor de informações sobre o esquema de financiamento ilegal da campanha Collor de 1989 e sobre operações financeiras que envolviam contas no exterior, empresas de fachada e remessas ilegais. Era, na linguagem processual, uma testemunha-chave em potencial contra dezenas de figuras políticas e empresariais.
Suzana Marcolino, 29 anos, era namorada de PC. O casal estava na casa de Maceió quando, segundo os autos, na madrugada de 23 de junho, Suzana teria disparado contra PC com um revólver calibre .38 e, em seguida, voltado a arma contra si. Os corpos foram encontrados pela manhã por funcionários da residência.
A Polícia Civil de Alagoas assumiu o caso. A tese de homicídio seguido de suicídio foi apresentada publicamente em menos de 48 horas. O inquérito foi concluído com essa conclusão. O caso foi arquivado.
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"A cena encontrada pelos primeiros investigadores apresentava elementos que, no mínimo, deveriam ter gerado investigação mais aprofundada sobre a possibilidade de simulação." (Caco Barcellos, Rota 66, reportagem para a TV Globo, 1996.)
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II
Linha do Tempo
1989 a 1992. PC Farias opera como tesoureiro da campanha Collor e como articulador financeiro do esquema de corrupção que levou ao impeachment.
1992. Fernando Collor sofre impeachment. PC Farias é indiciado em processos de evasão fiscal e lavagem de dinheiro.
1993 a 1996. PC responde a processos em liberdade. Negocia delações. Detém informações sobre contas e operações que envolvem dezenas de políticos e empresários.
23 de junho de 1996. PC Farias e Suzana Marcolino são encontrados mortos no quarto da residência dele em Maceió, AL.
24 de junho de 1996. A Polícia Civil de Alagoas apresenta a tese preliminar: Suzana teria matado PC e depois se suicidado. Crime passional.
Julho de 1996. Peritos contratados pela família de Suzana contestam a cena. Apontam inconsistências no posicionamento dos corpos, na trajetória dos projéteis e na ausência de residuos compatíveis com a tese.
Agosto de 1996. Jornalistas da Folha de S.Paulo, da Veja e da TV Globo publicam reportagens investigativas questionando a versão oficial.
1996 a 1997. O inquérito é concluído com a tese original. O Ministério Público de Alagoas pede o arquivamento.
2001. A família de Suzana apresenta pedido de reabertura ao TJAL, com base em laudo independente. O pedido é indeferido.
Hoje. Trinta anos depois. O caso permanece arquivado com a tese de suicídio.
III
As Lacunas
A primeira lacuna é a velocidade da conclusão. A tese de homicídio seguido de suicídio foi apresentada em menos de 48 horas, com laudos preliminares ainda incompletos. A perícia do local foi conduzida pela Polícia Civil de Alagoas, que na época não dispunha de unidade especializada em reconstrução de cena de crime.
A segunda lacuna é pericial. Laudos independentes contratados pela família de Suzana e analisados por peritos de São Paulo e Rio de Janeiro apontaram inconsistências na trajetória dos projéteis. A posição do revólver em relação ao corpo de Suzana, segundo a análise independente, era incompatível com suicídio por arma de fogo sem apoio externo. A distribuição de sangue no quarto, conforme registro fotográfico dos autos, apresentava padrões que peritos independentes classificaram como inconsistentes com a dinâmica proposta.
A terceira lacuna é contextual. PC Farias era, no momento de sua morte, o principal depositário de informações sobre uma rede de corrupção que envolvia as mais altas esferas do poder. Processos em andamento dependiam de seu depoimento. A possibilidade de delação premiada estava em discussão. A investigação policial não registrou, nos autos, nenhuma diligência formal sobre a hipótese de execução motivada pelo potencial de delação de PC.
A quarta lacuna é a porta trancada. O quarto foi encontrado trancado por dentro. Essa informação foi usada para reforçar a tese de crime passional seguido de suicídio. Peritos independentes e jornalistas apontaram que o tipo de fechadura permitia travamento externo com instrumentos simples, hipótese que deveria ter sido testada pela perícia e não foi documentada nos autos.
IV
O Sistema
O caso PC Farias expõe o que acontece quando um crime atinge uma pessoa que detém informações sobre o poder. A investigação não tratou a morte de PC como potencialmente conectada à sua posição como operador financeiro de um esquema de corrupção nacional. Tratou como caso doméstico. Passional. Localizado.
A decisão de enquadrar o caso como crime passional não é, em si, necessariamente incorreta. Mas é, no mínimo, incompleta. Um investigador diante de um operador de corrupção morto a tiros, em pleno período de negociação processual, deveria considerar a hipótese de execução como linha investigativa prioritária. Nos autos, essa linha não aparece. Não como hipótese formal, não como diligência, não como descarte fundamentado.
O segundo aspecto sistêmico é a relação entre poder político e investigação em Alagoas na década de 1990. A Polícia Civil que conduziu o caso operava em um estado em que PC Farias tinha influência econômica e política documentada. O inquérito foi conduzido e concluído localmente, sem participação da Polícia Federal ou de órgãos externos. Não há registro de pedido de avocação pelo Ministério Público Federal ou pela PGR.
O que o dossiê PC Farias documenta não é a certeza de um assassinato disfarçado. É a documentação de uma investigação que, diante de um morto politicamente sensível, escolheu a hipótese mais simples, encerrou no prazo mais curto e arquivou com a menor quantidade de perguntas possível. O sistema funcionou. Não para esclarecer. Para encerrar.
O dossiê continua aberto.
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