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Crime Aberto

DOSSIÊ DO DIA

Caso Pixote: o confronto que o laudo não sustenta

Diadema, SP · 1987

O REGISTRO OFICIAL FALOU EM REAÇÃO ARMADA, O EXAME APONTOU OITO DISPAROS DE CALIBRE .38 A CURTA DISTÂNCIA E TRÊS ENTRADAS NO BRAÇO DIREITO EM POSIÇÃO DE DEFESA, E O INQUÉRITO NUNCA PEDIU O TESTE QUE DIRIA SE ELE ATIROU

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Uma mesa de perícia à noite com um formulário de exame de resíduo de disparo em branco e sem assinatura, um envelope de coleta lacrado e nunca aberto e um diagrama anatômico de braço direito com três marcas de entrada, sem pessoas

RESUMO PRELIMINAR

Em 25 de agosto de 1987, em Diadema, a Polícia Militar abordou Fernando Ramos da Silva, o menino escolhido para o papel de Pixote. O registro dos próprios policiais falou em reação armada. O exame apontou oito disparos de calibre .38, três no braço direito erguido em defesa.

Uma abordagem da Polícia Militar numa casa de Diadema, na noite de 25 de agosto de 1987, terminou com oito disparos de calibre .38 e um registro oficial que falava em reação armada.

Este dossiê olha para o exame que nunca foi pedido: o teste de resíduo que diria, em horas, se o rapaz baleado chegou a atirar.

O laudo apontou tiros a curta distância e três entradas no braço direito, em posição de defesa, e a adulteração do processo só apareceu depois, na expulsão de três policiais da corporação.

Fernando Ramos da Silva nasceu em 1967 e cresceu em Diadema, cidade operária colada em São Paulo, numa família de dez filhos. Aos doze anos foi selecionado entre centenas de candidatos de escolas da região para o papel principal de um filme sobre um garoto de rua.

O filme estreou em 1981, circulou por festivais no exterior e recebeu prêmios de crítica em vários países. O menino apareceu em capas de revista e em entrevistas de televisão, e depois voltou para o mesmo bairro, para a mesma casa e para a mesma ausência de renda.

Nos anos seguintes, o nome do personagem grudou na pessoa. Tentou novos papéis, conseguiu participações pequenas e não emplacou carreira. Passou a ser reconhecido na rua pelo apelido do filme e a aparecer em registros policiais por ocorrências patrimoniais.

Aos dezenove anos era casado e pai de uma menina, sem ocupação estável e sem representação profissional. Nada no entorno dele separava o rapaz do personagem que o país tinha decorado.

Na noite de 25 de agosto de 1987, uma equipe da Polícia Militar chegou a uma casa em Diadema onde ele estava. A abordagem terminou com ele baleado no chão e com uma arma recolhida do local pelos próprios policiais.

O registro produzido por aquela equipe descreveu a cena como confronto. Ele estaria armado, teria reagido à aproximação e a resposta teria vindo em seguida. É a versão que entrou no papel e que organizou tudo o que veio depois, do inquérito ao julgamento.

O exame do corpo contou outra coisa, em números. Foram oito perfurações de projétil, compatíveis com calibre .38, o armamento então padrão da corporação, e os vestígios ao redor das lesões indicavam disparos feitos a curta distância.

Três dessas entradas estavam no braço direito, em trajeto compatível com o braço erguido à frente do corpo. É a posição de quem protege o rosto, não a de quem aponta uma arma. E o único exame capaz de decidir a questão nunca foi pedido.

"O registro afirmou reação armada e o laudo contou oito disparos a curta distância. Entre as duas coisas faltou a coleta de horas que diria se ele chegou a atirar, e ela nunca foi pedida." (Síntese da leitura que organiza este dossiê, e fica como leitura.)

I

O Caso

Fernando Ramos da Silva nasceu em 1967 e cresceu em Diadema, cidade operária colada em São Paulo, numa família de dez filhos. Aos doze anos foi selecionado entre centenas de candidatos de escolas da região para o papel principal de um filme sobre um garoto de rua.

O filme estreou em 1981, circulou por festivais no exterior e recebeu prêmios de crítica em vários países. O menino apareceu em capas de revista e em entrevistas de televisão, e depois voltou para o mesmo bairro, para a mesma casa e para a mesma ausência de renda.

Nos anos seguintes, o nome do personagem grudou na pessoa. Tentou novos papéis, conseguiu participações pequenas e não emplacou carreira. Passou a ser reconhecido na rua pelo apelido do filme e a aparecer em registros policiais por ocorrências patrimoniais.

Aos dezenove anos era casado e pai de uma menina, sem ocupação estável e sem representação profissional. Nada no entorno dele separava o rapaz do personagem que o país tinha decorado.

Na noite de 25 de agosto de 1987, uma equipe da Polícia Militar chegou a uma casa em Diadema onde ele estava. A abordagem terminou com ele baleado no chão e com uma arma recolhida do local pelos próprios policiais.

O registro produzido por aquela equipe descreveu a cena como confronto. Ele estaria armado, teria reagido à aproximação e a resposta teria vindo em seguida. É a versão que entrou no papel e que organizou tudo o que veio depois, do inquérito ao julgamento.

O exame do corpo contou outra coisa, em números. Foram oito perfurações de projétil, compatíveis com calibre .38, o armamento então padrão da corporação, e os vestígios ao redor das lesões indicavam disparos feitos a curta distância.

Três dessas entradas estavam no braço direito, em trajeto compatível com o braço erguido à frente do corpo. É a posição de quem protege o rosto, não a de quem aponta uma arma. E o único exame capaz de decidir a questão nunca foi pedido.

 
◆︎◆︎◆︎
 

II

A Falha

A falha central deste caso não está na distância entre a versão dos policiais e o resultado do exame. Está num teste que ninguém requisitou: o exame que diz se uma pessoa disparou uma arma de fogo.

Reação armada não é impressão de quem estava no local. É afirmação de fato, e afirmação de fato deixa rastro material. Quem aperta o gatilho de um revólver recebe nas mãos e nos punhos uma nuvem de partículas expelida pelo tambor e pelo cano no instante do disparo.

Em 1987, o procedimento usado no país para procurar esse rastro era a prova de parafina. Aplica-se parafina quente nas mãos, a luva endurecida recolhe os resíduos depositados na pele e o material vai para revelação em laboratório. Custava pouco, saía em horas e era rotina de plantão.

O exame tem prazo e o prazo é curto. Resíduo de disparo sai com água, sai com suor e se dispersa com o manuseio do corpo. Se a coleta não acontece nas primeiras horas, ela não acontece mais, e a pergunta deixa de ter resposta possível para sempre.

A parafina tinha limitação conhecida na época, porque acusava nitrato de outras origens, de fertilizante a fumo. Mesmo assim, um resultado entra nos autos e pode ser criticado, confrontado e pesado junto com o resto. A ausência de resultado não abre nenhuma dessas portas.

E a coleta nas mãos era só metade da cadeia. A arma atribuída a ele responderia sozinha a três perguntas objetivas: se funcionava, se tinha sido disparada havia pouco e de quem eram as impressões digitais no cabo, no tambor e nos cartuchos internos.

A outra metade estava no chão. Cápsulas recolhidas, projéteis alojados e marcas nas paredes permitem contar quantas armas dispararam e de que posição, e o confronto balístico dessas peças com o armamento da equipe fecha o desenho da cena.

Nenhuma dessas perguntas exige tecnologia rara. São perguntas de rotina, com resposta rápida e barata, feitas justamente para que a palavra de quem atirou não seja a única fonte do que se sabe sobre a cena.

A pergunta que fica não é se houve reação. É por que a única prova capaz de confirmar ou derrubar a reação nunca foi requisitada, num caso em que a versão inteira dependia dela. Um exame não pedido não produz culpado, produz uma afirmação sem lastro.

E a afirmação sem lastro teve efeito prático imediato. O inquérito passou a discutir excesso, legítima defesa e proporcionalidade, tudo em cima de um pressuposto que ninguém mediu: o de que houve disparo do outro lado.

 
◆︎◆︎◆︎
 

III

O Sistema

Quando quem atira é o Estado, quem produz o primeiro registro da cena é a própria equipe envolvida. O documento que abre o caso nasce das mãos de quem tem interesse direto no enquadramento do que aconteceu.

Registros desse tipo entravam no sistema com uma etiqueta pronta, a de resistência seguida de morte. A etiqueta não é neutra, porque já traz embutida a conclusão jurídica: houve reação, a resposta foi legítima e o resultado é consequência da reação.

A etiqueta decide o roteiro de exames. Um caso que entra como confronto não tem, no topo da lista, a pergunta que interessa. Ninguém precisa justificar por escrito a ausência de um teste que o formulário nunca previu.

O delegado que recebe o caso herda o enquadramento inteiro. Pede as diligências previstas no modelo, ouve os policiais, junta o laudo do corpo e conclui dentro do desenho que recebeu pronto na primeira folha.

Não faltava lei nem faltava perito. Faltava uma linha escrita obrigando o exame de resíduo em toda ocorrência com disparo de agente público, com registro expresso quando a coleta não fosse possível e o motivo da impossibilidade.

Na esfera penal, a discussão mudou de natureza. Processo criminal procura conduta: quem atirou primeiro, se houve excesso, se cabia legítima defesa. Sem âncora técnica, a resposta se resolve entre depoimentos, e os policiais envolvidos foram absolvidos.

A esfera administrativa chegou a outro lugar. A própria corporação apurou o episódio internamente e expulsou três policiais militares, e o fundamento não foi divergência de versão, foi fraude processual.

Vale entender o que a expressão significa. Fraude processual é alterar o estado de lugar, de coisa ou de pessoa com o objetivo de induzir perito ou juiz a erro. A tipificação afirma, com todas as letras, que a cena entregue à perícia não era a cena real.

Repare na ordem dos acontecimentos. Primeiro o processo criminal decidiu sobre conduta com o material disponível, depois a corporação reconheceu que parte do material tinha sido adulterada. O reconhecimento chegou quando o rastro já não existia.

Expulsão é resposta a comportamento, e comportamento é exatamente o que o sistema sabe julgar. Três policiais fora da corporação não devolvem um exame que ninguém colheu, nem reabrem a janela de coleta fechada em agosto de 1987.

A conta técnica não tem réu. Ela não se defende, não confessa e não presta depoimento. Por não caber na pergunta penal nem na pergunta disciplinar, ela sai de cena justamente onde a explicação seria produzida com força de prova.

O gargalo não foi falta de norma, foi a ausência de um exame barato que nenhum documento obrigou no momento certo. A conduta dos policiais foi julgada duas vezes, em duas esferas diferentes. A pergunta técnica, nenhuma.

A variável que decidiu o rumo do caso não foi a ficha que ele carregava nem a fama que o filme deixou. Foi um teste de algumas horas que nunca saiu do formulário para a mão de um perito.

A distância entre um confronto e um registro sem lastro cabe inteira nessa coleta que não foi feita. Com resultado nos autos, a versão oficial teria sido confirmada ou derrubada ainda em 1987, por escrito.

A pergunta não é se os três policiais mereciam a expulsão, essa a corporação respondeu à sua maneira. É por que um registro que afirmava reação armada atravessou inquérito e julgamento sem que ninguém cobrasse o único exame capaz de sustentar ou desmontar a afirmação.

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