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De novo a Candelária, e de novo a cena foi alterada antes que a perícia pudesse trabalhar. Pouquíssimos respondem por oito vidas. O que sumiu daquela calçada na madrugada pesa tanto quanto o que ficou.
Era madrugada de 23 de julho de 1993. Cerca de setenta crianças e adolescentes dormiam nas imediações da Igreja da Candelária, no centro do Rio de Janeiro, num grupo conhecido por viver de catar e pedir naquela esquina.
Por volta das 23h do dia anterior, um carro da Polícia Militar havia sido apedrejado ali por alguns deles. Horas depois, na madrugada, dois carros pararam perto da igreja. Homens desceram e abriram fogo contra os jovens que dormiam na calçada.
I
O Caso
Oito morreram. A vítima mais nova tinha onze anos. A maioria não passava dos dezoito. Alguns foram baleados ali, na frente da igreja.
Outros corpos apareceram depois, levados a outro ponto da cidade, no Aterro do Flamengo, o que indicava que pessoas haviam sido retiradas vivas ou mortas da cena original e descartadas em outro lugar.
Quando a perícia chegou à Candelária, a cena já não era a cena dos disparos: corpos removidos, posições perdidas, o registro físico do que acontecera diluído entre dois locais.
Sobreviventes, vários deles feridos, deram nome aos atiradores. Apontaram policiais militares. As investigações chegaram a um grupo de PMs ligados à corporação. Em julgamentos que se arrastaram pela década seguinte, três policiais foram condenados a penas longas pela execução. Um deles confessou ter participado.
A autoria policial, no núcleo do caso, foi reconhecida pela Justiça. O que nunca foi reconhecido com a mesma clareza foi quantos homens estavam ali naquela madrugada. Até aqui, há culpados com nome. O que mantém o dossiê aberto é a conta que não fecha.
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"O número de agentes que efetivamente participaram da ação não pôde ser estabelecido com a precisão que a gravidade dos fatos exigia, diante da remoção de vítimas e da alteração do local antes do exame pericial." (Síntese das peças processuais do caso, Justiça do Rio de Janeiro.)
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II
A Falha
A lacuna deste caso não é se houve execução nem se havia policiais envolvidos. Os dois pontos foram estabelecidos. A lacuna é a distância entre o número de pessoas que participaram da chacina e o número de pessoas efetivamente julgadas por ela.
Sobreviventes descreveram dois carros e mais de um atirador. A logística da noite, jovens abatidos na calçada e outros corpos transportados e abandonados longe dali, não é compatível com a ação de um único executor.
Mover vítimas, ocupar dois veículos, dispersar a cena em pontos distintos da cidade: isso exige um grupo. E ainda assim, ao fim de todos os processos, o que restou foi um punhado de condenados, com parte dos suspeitos absolvida por insuficiência de provas e outra parte sequer levada a julgamento.
A hipótese que organiza a leitura forense, e fica como hipótese, é esta: a cena foi adulterada exatamente onde isso mais pesa, na contagem dos autores.
Sem a cena preservada, sem o mapeamento intacto dos disparos e das posições, a perícia perdeu a base material para amarrar cada tiro a cada arma e cada arma a cada mão.
O que sobrou foi o testemunho de jovens aterrorizados, alvos da própria corporação que deveria protegê-los, contra a palavra de policiais. Provar a execução foi possível. Provar a extensão do grupo que a cometeu, não. A falha não foi não encontrar culpados. Foi não conseguir contá-los.
III
O Sistema
O caso da Candelária expõe um ponto cego estrutural: quando o suspeito é o próprio aparato que coleta a prova, a cadeia de custódia deixa de ser uma falha técnica e vira um interesse.
A cena alterada, os corpos removidos para outro local, a demora em isolar o perímetro, tudo isso opera a favor de quem precisa que o número de envolvidos jamais feche.
No Brasil, execuções com participação de agentes do Estado raramente produzem uma contabilidade completa de autores, porque a investigação nasce contaminada pela própria instituição investigada. O que se julga, quando se julga, é a ponta que sobreviveu ao apagamento. A Candelária teve condenações, e isso já é raro.
Mas teve oito mortos e uma conta de atiradores que ninguém nunca fechou. A regra, nesses casos, não é a impunidade total. É a impunidade do excedente: pune-se o que dá para provar e arquiva-se o resto, que costuma ser a maioria.
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