In partnership with

Crime Aberto

DOSSIÊ DO DIA

Caso Gabriela

Ribeirão Preto, SP · 14 de março de 2014

DNA COLETADO · LAUDO CONTESTADO POR CADEIA DE CUSTÓDIA FRÁGIL

Leia ouvindo

Crime Aberto 

Spotify
Laudo de exame de DNA e formulário de cadeia de custódia em branco sobre mesa institucional escura, com a expressão cadeia de custódia realçada em vermelho

RESUMO PRELIMINAR

Uma jovem some de Ribeirão Preto e é achada morta semanas depois. A perícia extrai um perfil genético e aponta um suspeito, mas a defesa o derruba pela forma como a amostra foi coletada. O exame decisivo virou o mais contestável.

A prova que deveria fechar o caso Gabriela foi a que mais o abriu. O perfil genético apontava um nome, mas a forma de coletar a amostra ruiu sob a defesa. Uma cadeia de custódia mal feita transforma certeza em dúvida.

Gabriela tinha 22 anos e morava em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo. Foi vista pela última vez na noite de 14 de março de 2014, ao sair do trabalho a pé em direção a um ponto de ônibus que nunca alcançou.

A família registrou o desaparecimento na manhã seguinte. O corpo foi localizado dezenove dias depois, em uma área de vegetação na saída da cidade, em estado de decomposição que já dificultava qualquer leitura simples da cena.

I

O Caso

A perícia recolheu material biológico do corpo e do local. Meses depois, o laboratório fechou um perfil genético que não pertencia à vítima e que, cruzado com uma amostra de um homem que tinha sido visto perto dela naquela noite, deu compatibilidade. Sobre esse resultado a investigação construiu a acusação. Era a prova central, a que ligava um nome ao corpo de forma direta.

O suspeito foi denunciado. E foi aí, na fase de instrução, que a prova mais forte começou a ruir. Não por estar errada no resultado, mas por não conseguir provar que a amostra analisada era, sem dúvida, a amostra colhida no caso.

"O exame pode acertar o perfil genético e ainda assim não servir, se ninguém puder garantir que o tubo analisado é o mesmo tubo recolhido na cena." (Síntese do problema processual que esvaziou a prova de DNA neste caso.)

II

A Falha

A lacuna deste dossiê não é o laudo. É a cadeia de custódia.

Cadeia de custódia é o registro contínuo de tudo o que acontece com uma evidência desde a coleta até o laudo: quem pegou, quando, como foi lacrada, onde ficou guardada, quem teve acesso, quem transportou.

Cada elo precisa estar documentado, porque é esse documento que garante que o material examinado no laboratório é exatamente aquele recolhido na cena, sem troca, sem contaminação, sem buraco no caminho.

No caso de Gabriela, a coleta foi feita sem lacre rastreável e sem registro completo dos manuseios entre a cena e o laboratório. Houve um intervalo em que não se sabe, pelos autos, onde a amostra esteve nem quem a manipulou.

A defesa não precisou afirmar que o DNA era de outra pessoa. Bastou apontar que a ponte entre o corpo e o tubo analisado tinha um vão sem documentação, e que esse vão, por si só, contamina a confiabilidade processual do exame.

A hipótese que organiza a leitura forense, e fica como hipótese, é esta: o perfil genético provavelmente estava correto, mas a forma de coletar e guardar a amostra impediu que a correção biológica virasse certeza jurídica. Prova genética e validação processual são duas coisas distintas.

O laboratório pode acertar o perfil e ainda assim o juiz não poder usá-lo, porque não há como afastar a dúvida de que aquele tubo seja outro tubo. Foi nessa fenda que o caso parou.

III

O Sistema

O caso Gabriela expõe um ponto cego estrutural: o Brasil investiu em laboratórios capazes de ler DNA, mas não na disciplina banal de provar de onde cada amostra veio.

A Lei 13.964 de 2019 passou a detalhar a cadeia de custódia em onze etapas obrigatórias, justamente porque casos como este se repetiam, com perícia de ponta entregando resultados que a coleta amadora não conseguia sustentar. O gargalo não está na ciência genética, que é robusta.

Está no elo humano antes dela: o saco sem lacre, o formulário não preenchido, a hora em que ninguém anotou quem segurou o tubo. Quando esse elo falha, não é a prova que mente, é o sistema que perde o direito de usá-la.

E a vítima cujo corpo entregou a única pista decisiva fica sem que essa pista possa, perante a lei, dizer o que diz. A genética sabia o nome. O processo não pôde escutar.

RECOMENDAÇÃO DE NEWSLETTER

Ciência Bizarra

Fenômenos que parecem mentira, mas são reais e estão provados. A afirmação, a evidência e a fonte. Ciência contraintuitiva que você vai querer contar pra alguém.

Quero ler →

Indicação de uma newsletter parceira que achamos que vale a sua leitura.

Como foi a edição de hoje?

Toque nas lupas pra avaliar:

🔍🔍🔍🔍🔍  ótima 🔍🔍🔍🔍  boa 🔍🔍🔍  ok 🔍🔍  ruim 🔍  péssima

☞ Quiz do dia

Verdadeiro ou Falso: no caso Gabriela, a prova de DNA foi contestada não porque o perfil genético estaria errado, mas porque a coleta e a guarda da amostra ficaram sem cadeia de custódia documentada.

VVerdadeiro
FFalso

Clique para descobrir se acertou.

Na edição de amanhã...

Caso Anderson Gomes 🔍

O dossiê continua aberto.

 

O RITUAL DIÁRIO

Um dossiê por dia. Um caso por vez.

Crime Aberto. O crime ficou sem solução. Mas a razão não ficou.

Publicidade

The free newsletter making HR less lonely

The best HR advice comes from people who’ve been in the trenches.

That’s what this newsletter delivers.

I Hate it Here is your insider’s guide to surviving and thriving in HR, from someone who’s been there. It’s not about theory or buzzwords — it’s about practical, real-world advice for navigating everything from tricky managers to messy policies.

Every newsletter is written by Hebba Youssef — a Chief People Officer who’s seen it all and is here to share what actually works (and what doesn’t). We’re talking real talk, real strategies, and real support — all with a side of humor to keep you sane.

Because HR shouldn’t feel like a thankless job. And you shouldn’t feel alone in it.

Continue lendo